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A

AJUSTE DO REISADO

Momento de organização da promessa que antecede a peregrinação. Reúne o pagador de promessa, familiares, trabalhadores e, quando existente, o coordenador do grupo, para confirmar funções, responsabilidades, valores e condições de participação. No ciclo acompanhado pela pesquisa, o ajuste ocorreu em 25 de dezembro, na casa do pagador de promessa. Os registros de campo distinguem esse momento doméstico e organizativo da bênção dos bois, de caráter religioso e público.

B

BAIÃO DOS CARETAS

Denominação local da cantiga executada pelos caretas durante sua apresentação, acompanhada pela sanfona e pelo sapateado dos próprios integrantes do trio. No contexto de Boa Hora, a expressão não designa apenas um ritmo ou toque instrumental, mas a música associada especificamente à atuação dos caretas.

BÊNÇÃO DOS BOIS

Rito religioso e público que antecede a peregrinação dos grupos. Reúne bois, pagadores de promessa, trabalhadores do Reisado, devotos e comunidade para a bênção conduzida pelo sacerdote. No ciclo pesquisado, ocorreu em 31 de dezembro, na Capela dos Santos Reis, marcando a abertura pública e religiosa da festa, embora sua organização tenha começado anteriormente com o ajuste.

BENGALA DO MANDADOR

Objeto utilizado pelo mandador durante a apresentação do boi. Integra sua atuação corporal e gestual e auxilia na condução da cena enquanto ele profere as mandações e coordena sua interação com o boi, o dançador, o sanfoneiro e os caretas.

BOI

Personagem e, simultaneamente, artefato material da performance do Reisado de Boa Hora. Sua estrutura recobre o dançador do boi, que lhe imprime movimento, enquanto o mandador conduz a apresentação por meio da palavra, da bengala e da interação com a sanfona. Cada grupo organizado em torno de uma promessa apresenta seu próprio boi, geralmente identificado por um nome. O boi não deve ser confundido com o conjunto do grupo nem com o Reisado enquanto manifestação cultural.

BUTIQUIM

Ponto móvel de venda de bebidas e lanches que acompanha o grupo durante a peregrinação. Integra a estrutura de apoio e sociabilidade que circula com os participantes pelas casas e comunidades. Em Boa Hora, butiquim é a forma adotada nesta dissertação por corresponder ao uso local informado pelos participantes. Ver também: Butiquinzeiro.

BUTIQUINZEIRO

Pessoa responsável pelo butiquim e por seu funcionamento durante a peregrinação, acompanhando os deslocamentos do grupo e cuidando da comercialização de bebidas e lanches. Trata-se de função de apoio logístico, distinta das funções diretamente ligadas à performance.

C

CAÇULINHA

Uma das três posições que compõem o trio de caretas no Reisado de Boa Hora, ao lado de Lampião e do careta velho. Participa das cantigas, do sapateado, das movimentações e das interações próprias do trio. Na tradição atual pesquisada, não existe correspondência fixa entre Caçulinha e um dos Reis Magos individualmente.

CANTADEIRA

Mulher responsável pela condução das partes cantadas da visita do Reisado às residências, especialmente os cantos de chegada ou anunciação e de despedida. As cantadeiras atuam geralmente em dupla, formada pela cantadeira principal e pela respondedeira. Suas vozes abrem e encerram ritual e musicalmente a passagem do grupo por cada casa.

CANTIGA DE ANUNCIAÇÃO

Cantiga executada diante da porta da residência no início da visita, também denominada no texto cantiga de chegada ou cantiga da porta. Anuncia a presença do Reisado e dos Santos Reis, dirige-se ao morador e solicita a abertura da casa para a continuidade da apresentação.

CANTIGA DE DESPEDIDA

Cantiga executada pelas cantadeiras ao final da visita. Agradece a recepção e as contribuições oferecidas e anuncia a partida do grupo para a residência seguinte.

CARETA

Personagem central da performance do Reisado de Boa Hora, normalmente organizado em trio formado por careta velho, Lampião e Caçulinha. Os caretas utilizam indumentária característica, cantam, sapateiam, dançam, produzem humor e interagem com moradores e público. As fontes locais aproximam coletivamente o trio da tradição dos três Reis Magos, mas a pesquisa não identificou correspondência fixa entre cada posição do trio e Belchior, Gaspar ou Baltazar individualmente.

CARETA MIRIM

Denominação utilizada em Boa Hora para crianças ou adolescentes que participam como aprendizes da atuação dos caretas. Podem acompanhar o trio, experimentar movimentos, cantigas e sapateado e aprender pela observação e pela prática, sem necessariamente ocupar uma das três posições formalmente ajustadas para o pagamento da promessa.

CARETA VELHO

Posição de maior responsabilidade dentro do trio de caretas, também denominada, conforme o grupo ou a fonte, Pai de Todos ou Pai do Povo. Não corresponde necessariamente ao participante de maior idade, mas àquele cuja experiência, memória, capacidade de diálogo e domínio da performance lhe permitem exercer maior mediação com o recebedor e com os demais caretas.

CARREGADOR DE CHINELAS

Pessoa de apoio responsável por transportar e auxiliar na troca do calçado dos caretas entre os deslocamentos e os momentos de apresentação.

CHINELAS DOS CARETAS

Calçados utilizados especialmente pelos caretas nos momentos de dança e sapateado. Os registros de campo descrevem sandálias próprias de couro, cujo uso contribui para a sonoridade produzida pelos pés durante a apresentação. Fora desses momentos, os caretas podem utilizar calçados comuns.

COORDENADOR DO GRUPO

Pessoa experiente que, quando existente, auxilia o pagador de promessa na organização prática do Reisado, estabelecendo contatos com trabalhadores, acompanhando materiais, trajetos e necessidades do grupo e ajudando a solucionar imprevistos. Não substitui o pagador de promessa nem o mandador e não constitui função obrigatória em todos os grupos.

D

DANÇADOR DO BOI

Trabalhador que permanece sob a estrutura do boi e lhe imprime movimento durante a apresentação. Transforma os comandos do mandador e o ritmo da sanfona em deslocamentos, giros, aproximações, quedas e levantamentos. Não deve ser confundido com o pé do boi ou carregador do boi, cuja função se relaciona sobretudo ao transporte e ao cuidado com o artefato entre as apresentações.

DONO DA PROMESSA / DONO DO REISADO

Expressões presentes na oralidade para designar o pagador de promessa. Não significam propriedade exclusiva sobre o grupo, os trabalhadores ou os saberes da manifestação. Ver: Pagador de promessa.

E

ENSAIO DO BOI

Denominação local da primeira apresentação efetiva do grupo, realizada antes da saída para a peregrinação, geralmente na casa do pagador de promessa. Apesar da palavra “ensaio”, não corresponde simplesmente a um treinamento ou repetição preparatória: reproduz a sequência ritual que será realizada nas casas, envolvendo chegada, atuação dos caretas, apresentação do boi e despedida.

ESMOLA DO SANTO

Contribuição oferecida durante a recepção do Reisado e vinculada aos Santos Reis e ao cumprimento da promessa. Pode assumir formas monetárias ou materiais. Distingue-se do agrado oferecido por meio do lenço dos caretas e dos valores previamente ajustados entre pagador e trabalhadores. Os registros de campo mostram que essas contribuições integram uma lógica de reciprocidade e colaboração com a promessa.

ESTANDARTE DO GRUPO

Elemento de identificação que apresenta o nome do boi e, por extensão, do grupo de Reisado. No ciclo pesquisado, os estandartes apareceram particularmente na bênção e no Festival e não acompanharam normalmente a peregrinação noturna. No Festival, são conduzidos pela Rainha do Reisado para identificar publicamente o grupo. Não devem ser confundidos com uma bandeira ritual autônoma ou com a função de porta-bandeira existente em outras tradições de Reis/Folia de Reis.

EX-VOTO

Objeto ou oferta material relacionada ao cumprimento de um voto ou ao agradecimento por uma graça alcançada. Na dissertação, o termo aparece principalmente nas discussões bibliográficas e comparativas sobre outras configurações de Reisado. No caso de Boa Hora, as expressões predominantes no campo são promessa e pagador de promessa.

L

LAMPIÃO

Uma das três posições do trio de caretas de Boa Hora, situada entre o careta velho e o Caçulinha na organização tradicional descrita pelas fontes locais. Participa das cantigas, movimentos, brincadeiras e sapateado do trio. Não corresponde, de forma fixa, a um dos três Reis Magos individualmente.

LAÇO DO BOI

Ação que pode integrar o encerramento do ciclo e a sequência da morte simbólica do boi. Nos relatos consultados, o boi pode ser colocado para ser laçado, inclusive por vaqueiros convidados. A pesquisa registra variações na realização dessa etapa, razão pela qual não deve ser apresentada como procedimento absolutamente uniforme em todos os grupos ou ciclos.

LENÇO DOS CARETAS / PAGAMENTO DO LENÇO

Prática pela qual os caretas oferecem ou deixam um pequeno lenço com o recebedor para que nele seja colocado um agrado, posteriormente devolvido ao trio. O valor é entendido como reconhecimento pela apresentação e não como salário dos caretas, que já possuem compromisso previamente estabelecido com o pagador de promessa. A expressão pagar o lenço dos caretas é empregada localmente para designar essa contribuição.

M

MANDAÇÃO

Fala cantada ou ritmada, composta por versos tradicionais e improvisados, por meio da qual o mandador conduz a apresentação do boi. Acompanhado pela sanfona e por seus gestos, ele pode orientar movimentos do boi, narrar aspectos da promessa, homenagear pessoas, mencionar acontecimentos da comunidade e interagir com os caretas e o público.

MANDADOR

Trabalhador responsável pela condução da apresentação do boi. Por meio da mandação, da voz, dos gestos e da bengala, articula sua atuação com o dançador do boi, o sanfoneiro, os caretas, o recebedor e o público. Sua autoridade refere-se sobretudo ao momento da apresentação do boi e não significa comando absoluto sobre todas as demais funções do grupo.

MORTE DO BOI

Ritual simbólico de encerramento do ciclo do Reisado, realizado no dia 6 de janeiro. Não corresponde à morte real de um animal. As fontes registram variações em sua realização e mencionam elementos como sorte do boi, laço do boi, terço de agradecimento e alimentação coletiva, sem que todos devam ser tratados como sequência rígida e imutável.

P

PAGADOR DE PROMESSA

Pessoa que assume a responsabilidade pelo cumprimento de uma promessa aos Santos Reis e organiza as condições necessárias para realizá-la. Mobiliza trabalhadores, familiares e recursos e responde por alimentação, transporte, organização do grupo e demais necessidades da peregrinação. Em determinadas situações, a obrigação pode ter sido assumida originalmente por um familiar e ser cumprida por outra pessoa. Na oralidade também podem aparecer as expressões dono da promessa ou dono do Reisado.

PAI DE TODOS / PAI DO POVO

Denominações utilizadas para a posição do careta velho em determinadas fontes ou grupos. Ver: Careta velho.

PÉ DO BOI / CARREGADOR DO BOI

Pessoa de apoio responsável pelo transporte, posicionamento e cuidado com a estrutura do boi entre uma apresentação e outra. Sua função se distingue da do dançador do boi, que permanece sob a estrutura durante a performance e lhe imprime movimento.

PEREGRINAÇÃO

Deslocamento ritual realizado pelos grupos de Reisado entre casas, bairros, comunidades e localidades durante o pagamento da promessa. Ocorre predominantemente à noite e envolve sucessivas visitas às residências, com recepção dos Santos Reis e realização da sequência de cantos e apresentações. O número de noites e os percursos podem variar entre os grupos.

PROMESSA

Obrigação devocional assumida em relação aos Santos Reis, geralmente ligada a um pedido, agradecimento ou graça reconhecida pelo devoto. Em Boa Hora, seu cumprimento pode mobilizar durante vários dias um grupo de Reisado, familiares, trabalhadores, recebedores e acompanhantes. No discurso dos participantes, seu sentido religioso é distinto de uma atividade organizada com finalidade de lucro.

PUBA

Denominação dada, no contexto explicado pela dissertação, à mandioca deixada em água até amolecer e fermentar, formando massa utilizada, entre outras finalidades, na produção de farinha de puba. O termo também aparece em uma narrativa informal local relacionada à denominação pubeiro.

PUBEIRO

Denominação identitária utilizada entre moradores de Boa Hora. Na memória oral informal do território conhecida pelo pesquisador, circula a explicação de que a palavra teria sido relacionada à puba e às características de áreas de solo escuro, úmido ou encharcado da região, em narrativa também associada às relações históricas com moradores de Barras. Como essa explicação de origem não foi documentada em entrevista específica nem em fonte histórica identificada pela pesquisa, é registrada nesta dissertação como memória local, e não como etimologia historicamente comprovada.

R

RAINHA DO REISADO

Personagem vinculada especificamente ao Festival de Reisado de Boa Hora, não integrando a peregrinação noturna tradicional dos grupos. É escolhida pelos pagadores de promessa, observadas as regras de participação estabelecidas pela organização do Festival, e conduz o estandarte com o nome do grupo, apresentando-o ao público durante a entrada na arena.

RECEBEDOR

Pessoa ou família que recebe o Reisado em sua residência durante a peregrinação. Responde ao canto, abre a casa, recebe temporariamente a imagem dos Santos Reis e permite a continuidade da apresentação, podendo oferecer esmola, agrado, alimentos ou outras formas de acolhimento. Não integra, por essa condição, o quadro de trabalhadores do grupo.

REISADO DE BOA HORA

Expressão utilizada nesta dissertação, no singular, para designar a manifestação cultural e religiosa compartilhada no município. Não significa a existência de um único grupo: a cada ciclo podem existir diferentes grupos organizados em torno de distintas promessas, cada qual com seus trabalhadores, seu boi e seu percurso.

RESPONDEDEIRA

Cantadeira que acompanha a cantadeira principal, repetindo, completando ou sustentando vocalmente os versos e contribuindo para a continuidade da entoada.

S

SANFONEIRO

Músico responsável pelo acompanhamento da apresentação. Fornece o tom às cantadeiras, sustenta musicalmente a atuação e o sapateado dos caretas, acompanha as mandações e dá base rítmica e melódica à dança do boi.

SANTOS REIS

Forma devocional pela qual os três Reis Magos são tradicionalmente nomeados no Reisado de Boa Hora. Sua imagem ocupa posição central no pagamento da promessa, na bênção, na peregrinação e na recepção pelas famílias.

SORTE DO BOI

Momento realizado imediatamente antes da morte simbólica do boi. Nos relatos registrados, envolve a arrecadação de contribuições pelos caretas e pelos Santos Reis, com o uso de bandejas, antecedendo a sequência de encerramento. No contexto de Boa Hora, a expressão não deve ser empregada para designar genericamente qualquer arrecadação realizada durante a peregrinação.

T

TERREIRO

No contexto do Reisado de Boa Hora, espaço aberto situado diante ou nas proximidades da residência em que ocorre parte da apresentação, especialmente a atuação do boi conduzido pelo mandador. Nesta dissertação, o emprego da palavra não designa espaço religioso de matriz africana.

TIRAR REISADO

Expressão da oralidade local empregada para designar a realização ou organização de um Reisado em cumprimento de uma promessa. Seu sentido ultrapassa a ideia literal de “retirar” alguma coisa e refere-se ao ato de colocar em prática o ciclo da promessa com o respectivo grupo. A análise das entrevistas recomenda preservar expressões desse tipo por constituírem categorias nativas relevantes.

TOLDA

Denominação local do pano colocado na porta da residência e utilizado para cobrir a imagem dos Santos Reis durante o momento da chegada e da anunciação. A palavra permanece também registrada nas cantigas do Reisado. A tolda não deve ser identificada automaticamente como uma bandeira ritual autônoma.

TRABALHADORES DE REISADO

Categoria local utilizada principalmente para designar os participantes ajustados para desempenhar as funções diretamente relacionadas à performance, entre eles cantadeiras, caretas, sanfoneiro, mandador e dançador do boi. Outras pessoas, como pé do boi, butiquinzeiro e carregador de chinelas, cumprem funções indispensáveis de apoio, mas podem ser diferenciadas analiticamente dos trabalhadores diretamente ligados à apresentação.

Sobre as definições

O glossário preserva integralmente os verbetes consolidados no documento “Glossário do Reisado”, priorizando os usos documentados no Reisado de Boa Hora-PI e explicitando quando uma expressão pertence a contexto específico, memória local ou comparação.